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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Papo de Feriadão

Cenário: Uma perua Town & Country da Chrysler, “aritmeticamente” fechada como diz o meu sobrinho de quatro anos, a descer a serra para o litoral norte de São Paulo, via Mogi das Cruzes.

Personagens: Quatro adultos, uma babá com os seus 18 ou 19 anos com uma menina de colo e mais dois meninos com quatro e oito anos. Um dos adultos era eu.

Conversa vai, conversa vem, lá pras tantas a passageira feminina, consorte do dono do caro, bem mais jovem do que eu, no banco do carona, reclama do preço do feijão. 


Até ali tudo bem. 

Achei bom alguém variar de assunto. 

Já levávamos quatro horas de viagem e eu dormitava. Só assim evitava envolver-me ou solidarizar com as reclamações do motorista por causa do engarrafamento. Tampouco me aborrecia com os dois infantes. Estes disputavam a gritos e beliscões o DVD que cada qual queria assistir só para embirrar com o outro.

Falar do preço dos alimentos num país como o Brasil, que dá quatro safras por ano, é uma arreliação; e muita. 


Causa-me calafrios. 

Portanto, apertei mais os olhos, ajeitei melhor o moletom à laia de travesseiro encostado na janela e soçobrei no burburinho das vozes. Uma gana de fumar um dos meus charutos cubanos entrou-me nesse instante, mas passou de imediato com a joelhada infantil no encosto do meu assento. 

Tudo bem, pensei. Afinal passei meses sem ver aquelas duas pestes. 

A joelhada ou patada, não sei direito, não olhei, devia servir-me de lembrança para refrear a próxima vontade de vê-los. Embalado por esse pensamento, fingi não ter sido incomodado. Do tio espera-se esse tipo de atitude. 

Eu era o tio. E o papo do feijão prosseguia. Ninguém merece.

Feijão pra cá, feijão pra lá, de repente escuto que o preço subira tanto a ponto da iniciadora do assunto recomendar à babá que diminuísse a vontade de comer tal legume. 


O preço do quilo, se multiplicado pela quantidade diária do comido no mês pela empregada, representava quase quarenta por cento do salário dela. 

Alguém famoso, num programa da TV Globo havia afirmado isso e recomendara alternativas para substituir o feijão. 

Aí eu abri os olhos. Não completamente. 

Primeiro entreabri o esquerdo e examinei a babá. Mesmo de branco, cor desfavorável, dizem, para quem é gordo, a garota pareceu-me bem esquelética para consumir o equivalente a quarenta por cento do salário dela, só em feijão. 

Até ali ainda não tinha ouvido o valor unitário do produto. Se foi mencionado antes, provavelmente algum dos gritos dos pimpolhos confundira os meus ouvidos. 

Um “sim senhora” foi a resposta lacônica que saiu da boca da babá. Foi quando abri o outro olho e arregalei os dois.

Eu não sei se foi a subserviência daquelas duas palavras ou a estupidez do pedido da minha cunhada, o certo é que apertei o botão para descer a janela. Precisei de ar para arejar a moleirinha. 


O moletom, coitado, voou sem querer estrada afora. 

O meu irmão ralhou com os filhos [e eu me senti vingado da patada no encosto], para que fechassem imediatamente a janela por causa do ar condicionado. No meio da bronca pedi que ele parasse para ir pegar o suéter. 

Tudo isto aconteceu em poucos segundos. 

Obviamente o meu sobrinho mais novo, que saiu ao tio em termos de raciocínio rápido, logo me acusou de ter sido eu a abrir a janela. A ranger os dentes registrei mais essa para descontar no próximo natal. 

A vingança seria fria e saboreada lentamente. O brinquedo que eu te der irá te engasgalhar. – Pensei para os meus adentros. – Nem que eu tenha que ir à China para comprar um desses divertimentos tóxicos que soltam as peças, será o que ganharás. – Resmunguei. 

Na hora, logo optei por adquiri-lo na rua 25 de Março mesmo. Na China deve ser meio difícil. Essas coisas são exportadas todas para o Paraguai e Brasil. 

Sim, definitivamente seria na 25 de Março, decidi. Lá, esse tipo de quinquilharias é mais tóxico e engasga melhor.

Ao sair do carro, sorte que a porta é de correr, quase fui atropelado por um desses motoristas gentis, de fim de semana, que rolam pela Rodovia Tamoios. Um daqueles que quando vê o carro da frente fazer sinal de parar, faz questão de ultrapassá-lo o mais rente possível. 


A babá, sutilmente soltou um “Ah” profundo. De susto, pareceu-me, por causa do imbecil que quase me atropelou. 

Que nada. 

Quando me virei emocionado para tranqüilizá-la, vi a razão da exclamação dela. Dois indivíduos montados numa motocicleta, tipo moto-boys, acabavam de pegar o meu moletom desmaiado na beira da estrada. 

Não deu dois segundos, apesar do meu gesticular, passaram por mim às gargalhadas enquanto o “pendura” amarfanhava a peça de roupa entre as pernas. Lá se foi o meu moletom, presente de uma ginasta, medalhada de cobre nas Olimpíadas de Atlanta

Acho que isso aconteceu por causa da praga que ela me rogou na última carta que escreveu, a qual, como as anteriores, eu não respondi.

Alguém já fez amor com uma ginasta Olímpica? Eu já; com a dita que ganhou a medalha de cobre. 


Não quero nem imaginar o que seria transar com a medalhista do ouro. 

Se com a de cobre, num determinado momento, fiquei sem saber onde tinha a cabeça ou os pés... Com a de ouro, certamente me dou um nó duplo e saio ricocheteando, se não quicando, pelos móveis do quarto. 

Mesmo com essas reminiscências eu guardava e usava aquele moletom. Posso não ter respondido às cartas... Apesar dos anos, ainda me lembro dela com carinho... E ainda me sinto exausto!

Mas naquele momento nem me lembrei disso. A culpa toda joguei-a em cima do preço do feijão. 


Acho que as pessoas fazem isso de propósito, só pra me irritar e me lembrarem como este país se tornou vergonhoso. 

Passados os abraços e os beijos, logo quando chego dão um jeito de me informarem que este ‘paíf’ tem uns governantes de merda e um povinho que nem Deus o quer. 

Pouco antes de sair do Brasil assisti pela televisão a uma entrevista desse infecto Lula gabando-se que, por causa do bom governo dele, o preço do arroz e do feijão haviam baixado como nunca antes se vira neste ‘paíf’

Deve ser por isso que esse homem é considerado o maior mentiroso do Brasil. 

Como subiu tanto, no espaço de tão poucos meses? Mais caro até que no tempo do boca de sovaco de cobra

O que foi que mudou? O que deu errado? Ah... Já sei. 

Não precisam me dizer. 

A causa vem da alta dos preços nos produtos alimentícios que ocorre na Europa. Afinal, como todo o brasileiro "sabe", é lá que estão as maiores plantações da vagem. Certamente, os Europeus, com raiva, por causa da carne sem qualidade e falta de controles sanitários que lhes enviamos daqui, aumentaram o preço do feijão. 

Está explicado! 

Os campos de feijão na França ou pela Alemanha devem estar de dar pena. Não deve ter feijão para alimentar os “sudacas” como os espanhóis nos alcunham. Eles, que igualmente possuem vastíssimos campos de feijão preto, mulatinho e até caricoca, também nos chamam de “brasileños” com aquela entonação especial que soa a puta, travesti ou ladrão.

Novamente dentro da mini-van com as portas trancadas, janelas fechadas e eu doido pra fumar um charuto, a companheira de viagem, na minha frente, resolveu dar o ar de sua graça. 


Dirigiu-me algumas palavras, apenada com a perda do meu moletom. Fez até biquinho com os lábios. 

Simpática, não? Isso achei. Antes de ouvir o resto. 

Até ali ignorara-me completamente. Acho que de ódio porque entrei primeiro no carro e tomei um dos assentos traseiros virados para a frente, ao lado da babá com a minha sobrinha ao colo. 

Para quem não sabe, a Town & Country tem dois assentos que ficam de costas para o motorista. Num deles ela se sentou e, de pescoço torcido, dedicou-se a conversar com a minha cunhada e a apoiar freneticamente as reclamações do meu irmão. 

Enfim, a moça, na flor de sua madurez, já com meia dúzia de pétalas caídas, solidarizou-se com a minha perda. Diz-me ela à laia de conclusão da sua solidariedade: – “esses baianos são uma praga em São Paulo. Eu sinto muito”. 

Acho que levei um minuto para digerir aquelas palavras e dois para responder. Não sei se foi pelo dos “baianos” ou pelo “sinto muito”. Sobre este último sentir, não entendi direito. Por que sentia tanto? 

Deixa pra lá...

Se há uma coisa engraçada neste “paíf” de cotas raciais e presidente analfabeto é que em São Paulo, negro é chamado de "baiano" e macumba de prática esotérica. Ninguém é macumbeiro. São todos esotéricos, brancos e lindos; todos de origem italiana, portuguesa ou espanhola. 


Nas noites de sexta-feira, na periferia e no bairro dos Jardins, os cruzamentos e parques ficam repletos de oferendas “esotéricas”. 

Dos “baianos” é claro. 

Na cidade de Santos, durante os fins de semana, então, é preciso ter cuidado para não pisar em algum despacho. Oh... Desculpem. Corrijo-me: oferenda “izotérica” como se diz e escreve na terra do Borba Gato

Macumba é palavrão em São Paulo. 

Nas casas acendem milhares de tabletes fedorentas “abre caminhos” compradas nas lojas de macumba do Campo Limpo, no Largo 13 ou na praça da Liberdade e dizem que é incenso indiano para atrair fluídos positivos. 

Enfim, hipocrisia é coisa que eu nem percebo que há em São Paulo. Quem disse que não há solidão pior do que estar acompanhado por um Paulista? 

Deve ter sido um “baiano”, certamente, que gosta de cortejo amontoado atrás de trio elétrico.

Tudo isso eu pensei, olhando para ela, no minuto ou dois que tomei para encontrar uma resposta “nice” à inteligente observação da moça de pétalas caídas. Lembro-me que nesse momento, mudo ao observá-la, descobri que os famosos pés de galinha nela haviam-se transformado num galinheiro em cada olho. Tive até vontade de informá-la desse reparo. 


Pensei até em imitar o meu sobrinho mais novo, a quem adoro pelas suas pontuações a dedo em riste, sempre muito inteligentes. Afinal saiu ao tio. Mas eu não disse nada. Quando encontrei uma resposta socialmente adequada ao espírito do feriadão, ela já havia torcido o pescoço para confabular com a minha cunhada. Portanto, se mudo estava, mudo fiquei. 

Eu já tenho fama de ser esquisito mesmo. Assim, achei melhor embrenhar-me nos meus pensamentos. Como o meu avô dizia, o melhor sempre fica por dizer.

Tão absorto estava no curso das minhas elucubrações, não sei quem mencionou o preço do feijão. Entre R$ 6,00 e R$ 7,00 o quilo. 


No Pão de Açúcar do Real Park estava em promoção por R$ 6,99. O arroz variava de R$ 12,00 a R$ 15,00, o saco de cinco quilos... 

Ah... Lula, seu sapo velho, gordo e bêbado... Seu malfeitor degenerado, como você engana bonitinho o povão deste teu ‘paíf’, que já nem considero meu. 

Novamente entraram-me ganas de fumar e abrir a janela. É claro que não o fiz. Não estava a fim de ver dois inocentes serem admoestados por um crime meu. 

No carro do meu irmão abrir a janela é crime; ou vocês não sabiam disso? É por causa dos assaltos, entenderam? O carro também é blindado. Chique, não? 

Lá dentro nos sentimos alijados dos resultados de uma sociedade corrompida, conseqüências de um povo incompetente para escolher governantes... e de governos corruptos nas suas políticas sociais.

Nesse momento pigarreei. Na verdade, engasguei-me ao ouvir aqueles preços e a dona do galinheiro em cada olho girou o rosto para mim. Será que ela ainda estava à espera de uma resposta minha à sua demonstração solidária para comigo? 


Não sei dizer. 

Se esperava, danou-se. Pelo espelho do retrovisor reparei nos olhos do meu irmão à minha procura. – “Não comece com esses seus ataques ao Lula, heim?" – Ameaçou-me ele desde o volante. – “Estamos no começo do feriado, indo para a praia nos divertir e não pra discutirmos política”. – Advertiu, imitando-me a voz. 

Ele sempre faz isso. Logo, soltou três ou quatro xingadas para o carro do lado que nos ultrapassou pelo lado direito; como se o infeliz tivesse a capacidade de ouvi-lo, apesar das nossas janelas fechadas e do som bate-estaca dele que me estremeceu quando nos ultrapassou. 

Eu nem me atrevi a um pio, sequer. Não sou doido. A coceira na garganta engoli-a a secas e como não tinha mais o moletom para fingir-me dormido, só me restou brindar o meu irmão com um dos meus sorrisos, o número três; aquele, por meio do qual ensino o caminho por onde ele deveria tomar. Eu sei que isso o irrita.

Já o disse aqui várias vezes que fui petista, assim como toda a minha família. Eu deixei de sê-lo no dia em que Paulo de Tarso Venceslau veio a público denunciar que o PT não passava de uma quadrilha de bandidos. Isso foi lá pelos idos de 1997. 


O resto da minha família só deixou de sê-lo com o escândalo dos Correios

Uma parte em 2005 e o resto em 2006. 

Diferente de mim, eles passaram a adotar a postura da avestruz. Cabeça enterrada, de vergonha, e bunda ao léu. Aliás, como a maioria do povinho deste ‘paíf’

Eu fiz o contrário. Enterrei a bunda, porque no meu ninguém bota, e deixei a cabeça bem alçada e os olhos bem abertos. Não tenho do que me envergonhar. Azar o meu que acreditei que o PT era formado por homens honestos e não vi que eram um bando de criminosos. 

Assim, como de bunda enterrada não conseguiria mover-me, saí do Brasil e fui morar fora. 

Em lágrimas... Sim, em lágrimas, seus idiotas imbecis que me criticam, joguei no lixo o meu passaporte brasileiro, de onde nunca mais o retirarei, e adotei nova nacionalidade. 

Eu e meus filhos. 

Se a minha família e o resto do povo querem viver no esfíncter brasileiro inflamado e preferem se acovardar ao Lula, Zé Dirceus e demais traidores que governam este ‘paíf’, e me deixaram só, brigando até à exaustão, para mudar e tirar esses meliantes do governo, nada mais posso fazer. 

Cansei. Cansei de tentar mostrar que a alienação política, moral e ética que imperam neste ‘paíf’ levá-lo-á ao maior descalabro social que nem os tucanos foram ou serão capazes de fazê-lo. .

Só um povo idiota e deslumbrado vivendo pobres vidas cegas, incultas e venais; autênticos analfabetos políticos é capaz de adotar posturas passivas e conformadas diante as altas dos alimentos que estão a acontecer no Brasil. 


Essas altas nada têm a ver com o que ocorre na Europa; e lá, seus imbecis, não existem campos de feijão. O feijão que comem é produzido aqui, seus idiotas. Vocês não ouvem, não falam, não participam dos acontecimentos nacionais; nem sequer lutam pelos direitos que lhes concernem como sociedade. Acreditam que vaca voa e em todas as mentiras que esse governo safado, que aí está, lhes enfia pelos ouvidos. 

Vocês não raciocinam que os custos de vida, o preço do feijão, do frango, da farinha, do aluguel ou o do sapato ou o do remédio, dependem de decisões políticas??? Tão broncos e estultos, orgulham-se e estufam o peito ao dizerem que odeiam a política. 

Não sabem vocês, insensatos e insensatas, que das suas ignorâncias políticas nascem as prostitutas, os menores abandonados, os assaltantes e o pior de todos os bandidos: os Lulas, os políticos vigaristas, os corruptos, os lacaios auto-denominados “trabalhadores”, a serviço das empresas nacionais e multinacionais... dos aero-trens, das universidades com cotas raciais, das construtoras, das indústrias de multas, das contribuições para a saúde desviadas para financiamento dos clubes fisiologistas?? 

E vocês ainda se consideram a coisa mais linda que existe no país, porque as vinte e quatro horas do dia respiram esperança?? 

É só isso que sabem fazer! 

Ao se abandonarem à preguiça ao debate, ao domínio de uma minoria de corruptos e bandidos, preferem reformar o arbítrio a confirmar a sua existência. Com essas atitudes, vocês simplesmente extirparam o alvedrio como se corta um câncer. 

E vocês ainda têm a petulância de me dizerem que a maioria tem a razão... Que a voz do povo é a voz de Deus... Estúpidos é o que vocês são! 

Não é de surpreender que respirem esperança as vinte e quatro horas do dia... Talvez a esperança de conseguirem ter forças para retirarem a venda que colocaram em si mesmos, para não enxergarem, envergonhados, a mediocrização das suas expectativas; o quão desleixados se tornaram nos seus padrões e princípios morais, nas suas lutas pela sobrevivência. Em nome dessa tal sobrevivência vocês só conseguem revelar o ego fraco que possuem; a inabilidade para mediar entre o instinto e a idéia de moralidade que possuem... se é que alguma têm.

O meu sorriso número quatro, o mais provocante e o mais insinuador, transmitiu ao meu irmão tudo o que acabei de escrever acima, e que ele conhece de cor e salteado. Isso esverdeou-o e fê-lo olhar-me de relance, preparando-se para retrucar. Ele adora fazer o papel de advogado do diabo.

De repente, o meu sobrinho mais novo, aquele que se parece comigo e a quem pretendo deixar as futuras milhares de ações que desejo adquirir de uma empresa multinacional de Biodisel, diz na sua vozinha de quatro anos: – “Papai, não comece a discutir com o tio, que você vai perder como sempre. Você sabe que ele sempre tem razão e você não é como ele porque mamãe não deixa...”.

Pronto. Na mesma hora arrependi-me de ter pensado em oferecer-lhe um brinquedo tóxico com peças a soltarem-se para que se engasgasse. 


É claro que eu nunca faria uma coisa dessas. 

Posso ser esquisito para os padrões nacionais, mas não sou nenhum desalmado, nem me sinto esquisito. Afinal esse menino é o meu sobrinho preferido, além do mais, afilhado de batismo e parecido comigo. 

Onde estava eu com a cabeça quando pensei numa coisa dessas? 

Intimamente desejei: – me dá outra patada no encosto, que eu mereço. – Juro que se estivéssemos nos Estados Unidos ou na Europa obrigaria o meu irmão a rumar para a melhor loja de brinquedos e comprar-lhe-ia o melhor Play Station que o dinheiro pudesse comprar. Nesse instante jurei a pés juntos que esse seria o presente dele. Não no Natal, que ainda está longe, mas agora em julho, no aniversário de cinco anos dele.

Com esse desejo e com essa vontade chegamos à minha casa na praia, a qual, antes de sair do Brasil coloquei em nome desse meu jovem e admirado sobrinho que só será efetivamente dele, depois que eu morrer.

À nossa espera, depois de seis horas de viagem e mortos de fome, encontramos um almoço, já perto do jantar, com arroz a R$ 12,00 o saco, uma terrina de feijão a R$ 6,99 o quilo, carne assada, salada e pudim da vovó. Tudo preparado pela dona Maria, a cozinheira que me viu crescer. 


Felizmente eu não como nem feijão, nem arroz. Detesto ambos. Diz-me a Dona Maria das Graças, com o seu habitual ar risonho : – “Félix, espera só um pouquinho que eu estou terminando de fritar a batata do jeito que você gosta”. 

– Claro que espero, respondi-lhe, também risonho.

– “Eu também quero batata frita, vovó”, – responderam os meus dois sobrinhos quase ao mesmo tempo. O mais novo falou primeiro.

– “Ai, dona Graça, [minha mãe detesta que a tratem por Maria], se a senhora não se importar, eu também quero um pouquinho”. – Pediu a dona do galinheiro.

Mamãe, acho que a Chislene [esse é o nome da babá], também vai querer. – Alertei eu.– Aliás, – acrescentei – acho que todos vamos preferir batata frita...

– “Sim! Batata frita. Queremos batata frita...” – entoaram os dois garotos.

– “O que foi que aconteceu na viagem pra ninguém querer feijão?” – perguntou meu pai, surpreso com toda aquela insurreição revolucionária em detrimento dos alimentos base do povo brasileiro; tão famosos, que minha mãe prepara à excelência; que todo o mundo elogia e eu detesto.

– “Que eu saiba, nada. Também não estou entendendo”. – Retrucou o meu irmão, como sempre, pachorrento e contemporizador.

– “Mamãe pediu pra “Chis” não comer feijão, porque está muito caro”. – Novamente foi o meu jovem sobrinho, aquele que é parecido comigo e a quem me prometi oferecer-lhe um Play Station de última geração... e um carro, jurei nesse momento pra mim mesmo, tão logo tivesse idade para isso, se eu conseguir chegar até lá.

– “Eu nunca falei uma coisa dessas, Félix! Deixa de ser mentiroso, meu filho” – Exasperou-se a minha cunhada, cujo hábito em negar o dito é uma constante. Normalmente ela trata o menino de moleque, mas na frente da sogra é meu filho pra cá, filhinho pra lá. Ela faz o tipo da mãe brasileira atual.

Agora vocês entendem porque adoro o meu sobrinho. Ele também se chama Félix. O único segundo Félix que conheço. Pode? E eu sou seu tio, mas não fui eu quem escolheu tal nome. Deus me livre. Meu irmão foi. Ele me adora. Talvez por isso não tenha argumentos para me ganhar numa discussão política. E alguém lá tem? Alguém é capaz disso? 


Eu nunca me considerei vitorioso em nenhum bate-boca político nem nunca ganhei nenhuma discussão desse gênero. Acho isso pouco provável de vir a acontecer. Política não se discute. Apenas se exemplificam argumentos. 

Política é uma comunhão de idéias de um grupo de pessoas que discorda de outras. Nunca há vencedores nem vencidos. 

Só no Brasil se toma a política como um campeonato de futebol e ainda se diz democrático. 

Pobre! 

Política é um conjunto de opiniões e/ou simpatias de uma pessoa com relação à arte ou ciência política, a uma doutrina ou ação política... Um grupo de idéias hoje em destaque pode ser motivo de execração amanhã. 

Discussão política, neste momento no Brasil, deveria ser para encontrar soluções de modo a afastar os espertalhões e peteísta mafiosos que estão a afundar este país. Deveria ser para descobrir novos caminhos que unam uma comunidade em prol de um bem comum... 

Definitivamente não é o que acontece no governo analfabeto e criminoso do PT. Aliás, política neste ‘paíf’, infelizmente, passou a escrever-se com ‘p’ minúsculo e não dá para ser discutida, quanto mais para vencer, se o povão continua acéfalo. 

Hoje, discutir política no Brasil é, na minha opinião, jogar pérolas a porcos.

Márcia, [esse é o nome da minha cunhada], você disse sim! – Respondi eu calmamente. – Tanto disse que você até fez os cálculos que o feijão que a Chislene come, representa quarenta por cento do salário dela...– afirmei com uma piscada de olho solidária para o meu sobrinho.

– "Mas eu não falei por maldade... Foi só um comentário..." – choramingou. Quando se vê acuada faz isso. – "Ela pode comer todo o feijão que quiser,... Meu Deus... Ó Senhor...". – E as lágrimas saltaram-lhe como sempre. Tipo esguicho em arco; para a frente e logo para baixo.

A Márcia, que eu sei que me lê de vez em quando, é a única pessoa que conheço que chora dessa maneira. É até divertido vê-la jorrar lágrimas e apostar onde ou em quem vai cair a primeira.

Não preciso contar o que aconteceu depois. Podem imaginar o que quiserem. Contudo, ela se levantou e correu para o quarto. Meu irmão foi junto. 


As minhas orelhas quase pegaram fogo. 

Dona Maria das Graças trouxe da cozinha uma bandeja linda, repleta de batatas fritas. Todos nós nos empanturramos à vontade com elas. Até meu pai que não come frituras, beliscou. Não sei em que altura da tarde a Márcia e o meu irmão almoçaram. Eu fui andar pela praia acompanhado pelos meus dois sobrinhos. 

Finalmente pude deleitar-me com um Vega Robaina que fumei quase até aos dedos.

Na volta o assunto havia esfriado. Ninguém falou nada. Só a Márcia e a dona do galinheiro me olhavam aqui e acolá, meio ressabiadas. 


Tolinhas. Apenas resvalaram na couraça da minha indiferença. 

No almoço do dia seguinte, as mesmas travessas com o mesmo arroz a R$ 12,00 e o feijão a R$ 6,99 o quilo vieram para a mesa. Todo o mundo comeu. Menos eu, é claro. Não sei por quê, achei que a Chislene comeu pouco, mas eu nem me atrevi a dizer um ai.

Uma nota final:

A você, Márcia, que eu sei que me lê e viu começar a escrever esta crônica. Pense, reflita no que acabei de escrever e, muito em especial, não siga os conselhos da TV Globo. 


Ah... e na próxima vez que tentar empurrar para cima de mim alguma das suas amigas encalhadas, por favor, certifique-se antes que a escolhida seja, pelo menos, medianamente inteligente.


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